Venezuela, Estados Unidos e a lógica das intervenções: uma análise histórica e geopolítica

Os acontecimentos recentes envolvendo a Venezuela reacenderam um debate antigo, mas sempre atual: quando, por que e contra quem os Estados Unidos intervêm militar ou politicamente? Para compreender esses ocorridos, é fundamental olhar além do fato imediato e situá-lo dentro de um padrão histórico de atuação internacional dos EUA, marcado por interesses estratégicos, disputas geopolíticas e uma aplicação seletiva do discurso dos direitos humanos.

O episódio venezuelano no contexto atual


Em 2026, uma operação militar conduzida pelos Estados Unidos resultou na captura do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, sob acusações ligadas ao narcotráfico e ao terrorismo. A ação ocorreu em território venezuelano, gerando forte reação internacional e levantando questionamentos sobre violação de soberania nacional e respeito ao direito internacional.

Oficialmente, o governo norte-americano justificou a operação com base em argumentos de segurança e combate ao crime transnacional. No entanto, para muitos analistas, o episódio não pode ser compreendido isoladamente, pois se insere em uma longa tradição de intervenções diretas ou indiretas dos EUA, especialmente na América Latina.

Um histórico que se repete

estados unidos intervenção militars

Desde o século XX, os Estados Unidos intervieram em diversos países sob diferentes justificativas:

  • combate ao comunismo durante a Guerra Fria;

  • defesa da democracia;

  • luta contra o narcotráfico;

  • preservação da “estabilidade regional”.

Na prática, essas intervenções frequentemente estiveram associadas a interesses econômicos, estratégicos e geopolíticos, como controle de rotas comerciais, recursos naturais (especialmente petróleo) e influência política em regiões consideradas estratégicas.

Casos como o apoio ao golpe no Chile (1973), a invasão do Panamá (1989) e as múltiplas interferências na América Central mostram que a política externa norte-americana historicamente combinou discurso moral e interesses de poder.

Direitos humanos: princípio universal ou argumento seletivo?

estados unidos e direitos humanos

Um dos pontos centrais do debate é a aplicação seletiva do discurso dos direitos humanos. Embora os Estados Unidos frequentemente justifiquem intervenções com base na defesa da democracia e da liberdade, existem diversos países com regimes autoritários, violações sistemáticas de direitos humanos e restrições às liberdades civis que não sofrem intervenções militares diretas.

Exemplos frequentemente citados incluem:

  • países aliados estratégicos no Oriente Médio, ex. Arábia Saudita e Israel;

  • grandes potências com regimes, ex. Rússia;

  • nações economicamente relevantes para o mercado internacional, ex. China.

Isso evidencia que a violação de direitos humanos, por si só, não determina a intervenção, mas sim o peso político, econômico e estratégico do país envolvido.

Venezuela: soberania, recursos e geopolítica

Venezuela

No caso venezuelano, além da crise política e humanitária prolongada, há fatores centrais como:

  • grandes reservas de petróleo;

  • posição estratégica na América do Sul;

  • alianças internacionais consideradas hostis aos interesses norte-americanos.

Esses elementos ajudam a explicar por que a Venezuela se tornou alvo de sanções, pressões diplomáticas e, mais recentemente, de uma ação militar direta, algo que não ocorre com a mesma intensidade em outros regimes autoritários ao redor do mundo.

O risco dos precedentes internacionais

soberania

A captura de um chefe de Estado em exercício por forças estrangeiras cria um precedente perigoso no sistema internacional. Ao enfraquecer princípios como soberania nacional e autodeterminação dos povos, abre-se espaço para que ações semelhantes sejam justificadas por outras potências no futuro, ampliando tensões globais.

Mais do que resolver crises, esse tipo de intervenção tende a agravar instabilidades, gerar insegurança jurídica internacional e aprofundar divisões políticas internas nos países atingidos.

O caso da Venezuela revela que a política internacional não se orienta apenas por valores universais, mas por relações de poder, interesses estratégicos e disputas de influência. A análise histórica mostra que as intervenções dos Estados Unidos seguem uma lógica seletiva, na qual nem todos os regimes autoritários são tratados da mesma forma.

Para professores, estudantes e leitores interessados em compreender o mundo contemporâneo, esse ocorrido é uma oportunidade de refletir criticamente sobre:

  • soberania nacional;

  • direitos humanos;

  • imperialismo e hegemonia;

  • os limites e contradições da política internacional.

Entender esses processos é essencial para formar cidadãos capazes de analisar o noticiário internacional para além das manchetes, com olhar histórico, crítico e contextualizado.